Além dos erros, enganos e recados, aí está a TV possibilitando a comunicação.
A gente costuma falar mal da televisão e, na verdade, temos muito motivo para isso. Ao mesmo tempo há que reconhecer os méritos óbvios desse insuperável veículo de comunicação, há o milagre eletrônico que ele representa.
Mas há outros méritos de que se fala pouco e, no entanto, estão sempre visíveis e diários. Por exemplo, o acesso à informação e à comunicação, aberto à qualquer tipo de pessoa, por mais humilde que seja, por mais distante que viva. Note-se, especialmente depois que se inauguraram esses programas de consulta popular, em que o repórter sai pela rua, interpelando o transeunte a respeito de qualquer problema da comunidade. Chega a haver muita gente que, não apenas não se esquiva, mas até sai ansiosa à procura da moça do microfone, para dar o seu recado a respeito do que ela quer ou teme, do que sofre, do que precisa, do que a atormenta ou revolta. O liberador desabafo. Isso só a TV pode fazer.
É a comunicação direta e imediata - ao vivo - entre a pessoa da rua ou da favela, ou da enchente, ou da seca, ou da selva amazônica e o resto da população. Gente até então sepultada num anonimato, que se diria inviolável, e de repente aparece à luz do sol, para dezenas de milhões de brasileiros seus irmãos, e mostra a sua face, diz que esta viva, que tem um coração no peito batendo igual ao teu, que da sua boca (a que muitas vezes faltam dentes) podem sair palavras de sabedoria, importantes pedidos de socorro e - por quê não? - até brados de revolta.
Esse, um dos trunfos da TV: dar imagem e voz aos que ninguém pensava que tinham rosto ou soubessem falar. Essas meninas, esses rapazes que, com o seu microfone e a sua camereta, saem pelos cafundós do sertão ou pelas selvas de pedra das cidades, são mesmo os heróis do nosso tempo. Passou a fase pioneira em que o repórter fazia as suas entradas por mata e rio apenas como esportista aventureiro. Hoje eles têm sua função social, dirigem-se a um ponto específico, informando acerca de uma circunstância específica. Com a atual expansão das redes nacionais de TV, mal acontece um fato social importante - calamidade ou descoberta de ouro - há sempre uma equipe deles próxima ao local, onde é necessária para o indispensável testemunho.
Outro mérito da moderna TV: a democratização do acesso à comunicação, através de certos programas de auditório, especialmente as chamadas "mesas-redondas". Numa mesma mesa-redonda podem estar presentes, ombro a ombro, o alfa e o ômega da sociedade. Num programa sobre higiene sanitária comparecem tanto o cientista de renome internacional quanto o representante dos lixeiros, debatendo os problemas da sua especialidade. Uma princesa e uma favelada, uma estrala de teatro e um figurante, todos com direito à intervenção e ao debate.
Perdoem-se, portanto, à TV os seus grandes e vários pecados, por amor do muito que ela também pode fazer. Aquela câmera que fotografa em ângulo escandaloso os remelexos da sambista pode ser a mesma câmera que, ao lado dos bombeiros, se afunda pelas crateras dos desmoronamentos e dá a identidade das vítimas e pede com urgência o socorro.
Ah, meninas e rapazes que às vezes nos impacientam um pouco quando disparam aquela ingênua, infalível e impiedosa pergunta: "Como é que você se sente vendo seu filho assassinado, ou seu barraco em chamas, ou seu pai seqüestrado, ou sua mãe sumida debaixo dos escombros?"
Eles não perguntam por mal. São tão jovens que nunca passaram por experiência assim terrível; e querem realmente saber o que acontece com outro ser humano, atingido pela desgraça, daquela forma esmagadora.
Rachel de Queiroz
(O Estado de São Paulo, São Paulo, 15 março 1988)
A gente costuma falar mal da televisão e, na verdade, temos muito motivo para isso. Ao mesmo tempo há que reconhecer os méritos óbvios desse insuperável veículo de comunicação, há o milagre eletrônico que ele representa.
Mas há outros méritos de que se fala pouco e, no entanto, estão sempre visíveis e diários. Por exemplo, o acesso à informação e à comunicação, aberto à qualquer tipo de pessoa, por mais humilde que seja, por mais distante que viva. Note-se, especialmente depois que se inauguraram esses programas de consulta popular, em que o repórter sai pela rua, interpelando o transeunte a respeito de qualquer problema da comunidade. Chega a haver muita gente que, não apenas não se esquiva, mas até sai ansiosa à procura da moça do microfone, para dar o seu recado a respeito do que ela quer ou teme, do que sofre, do que precisa, do que a atormenta ou revolta. O liberador desabafo. Isso só a TV pode fazer.
É a comunicação direta e imediata - ao vivo - entre a pessoa da rua ou da favela, ou da enchente, ou da seca, ou da selva amazônica e o resto da população. Gente até então sepultada num anonimato, que se diria inviolável, e de repente aparece à luz do sol, para dezenas de milhões de brasileiros seus irmãos, e mostra a sua face, diz que esta viva, que tem um coração no peito batendo igual ao teu, que da sua boca (a que muitas vezes faltam dentes) podem sair palavras de sabedoria, importantes pedidos de socorro e - por quê não? - até brados de revolta.
Esse, um dos trunfos da TV: dar imagem e voz aos que ninguém pensava que tinham rosto ou soubessem falar. Essas meninas, esses rapazes que, com o seu microfone e a sua camereta, saem pelos cafundós do sertão ou pelas selvas de pedra das cidades, são mesmo os heróis do nosso tempo. Passou a fase pioneira em que o repórter fazia as suas entradas por mata e rio apenas como esportista aventureiro. Hoje eles têm sua função social, dirigem-se a um ponto específico, informando acerca de uma circunstância específica. Com a atual expansão das redes nacionais de TV, mal acontece um fato social importante - calamidade ou descoberta de ouro - há sempre uma equipe deles próxima ao local, onde é necessária para o indispensável testemunho.
Outro mérito da moderna TV: a democratização do acesso à comunicação, através de certos programas de auditório, especialmente as chamadas "mesas-redondas". Numa mesma mesa-redonda podem estar presentes, ombro a ombro, o alfa e o ômega da sociedade. Num programa sobre higiene sanitária comparecem tanto o cientista de renome internacional quanto o representante dos lixeiros, debatendo os problemas da sua especialidade. Uma princesa e uma favelada, uma estrala de teatro e um figurante, todos com direito à intervenção e ao debate.
Perdoem-se, portanto, à TV os seus grandes e vários pecados, por amor do muito que ela também pode fazer. Aquela câmera que fotografa em ângulo escandaloso os remelexos da sambista pode ser a mesma câmera que, ao lado dos bombeiros, se afunda pelas crateras dos desmoronamentos e dá a identidade das vítimas e pede com urgência o socorro.
Ah, meninas e rapazes que às vezes nos impacientam um pouco quando disparam aquela ingênua, infalível e impiedosa pergunta: "Como é que você se sente vendo seu filho assassinado, ou seu barraco em chamas, ou seu pai seqüestrado, ou sua mãe sumida debaixo dos escombros?"
Eles não perguntam por mal. São tão jovens que nunca passaram por experiência assim terrível; e querem realmente saber o que acontece com outro ser humano, atingido pela desgraça, daquela forma esmagadora.
Rachel de Queiroz
(O Estado de São Paulo, São Paulo, 15 março 1988)
Um comentário:
o que significa isso na mesma mesa redonda podem estar presentes ombro a ombro, não entendi
Postar um comentário